Carlos Martins, mestre em tecnologia nuclear, explica o acidente nuclear no Japão e suas implicações na bolsa - Trader Gráfico - Robôs, Cotações, Notícias e Análises Bovespa
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    Análise Técnica e SuperSinais
    Ano 5 - Número 91 - Quinta-feira, 17/03/2011


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    Carlos Martins, mestre em tecnologia nuclear, explica o acidente nuclear no Japão e suas implicações na bolsa

    Quando terminei meu mestrado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, na USP, e migrei meus negócios para a bolsa, principalmente pela escassez de empregos e empreendimentos nesta área no Brasil, pensei que meus conhecimentos adquiridos não seriam mais úteis na prática. Quando vejo os mercados oscilando fortemente atrelados aos acidentes nucleares da usina de Fukushima, no Japão, sinto-me na obrigação de dar a minha opinião sobre assunto, tanto do ponto de vista do Mestre em Tecnologia Nuclear Carlos Martins como do Profissional de Investimentos (CNPI) Carlos Martins.

    Antes de mais nada, precisamos entender que o domínio da tecnologia nuclear, restrito a poucos países para geração de energia e pouquíssimos para o desenvolvimento de armas, é extremamente estratégico, pois devido à sua complexidade, envolve todo o conhecimento científico de uma nação para administrá-lo e operá-lo. Só este fato já cria uma zona de exclusão de informações enorme na sociedade civil, que pouco entende sobre o que é e quais os riscos e benefícios (econômicos) da energia nuclear.

    As reações nucleares estão presentes no universo de forma abundante, um exemplo disso é o próprio Sol, onde uma reação de fusão nuclear (onde átomos de hidrogênio – peso atômico 1 – se unem formado átomos de hélio – peso atômico 2 – daí o nome de nossa estrela) nos bombardeia (o planeta Terra) com radiação todos os dias. Radiação esta que se dispersa na atmosfera e nos atinge em níveis “aceitáveis” para uma vida urbana cotidiana.

    Vou explicar abaixo a complexidade da energia nuclear, pois quero concluir no final deste artigo quais os riscos que isto pode gerar e desejo que você, leitor, entenda porque cheguei a estas conclusões.

    Diferente da reação nuclear solar, as reações de usinas nucleares geram a fissão nuclear, onde um átomo extremamente pesado, como o urânio – peso atômico 238, porém o radioativo tem peso atômico 235 – se divide em 2 novos átomos, de elementos químicos diferentes, e no processo libera calor e radiação.

    Estou dando o exemplo do urânio pois é o que utilizamos aqui no Brasil nas usinas de Angra. O urânio metálico 238 é um material extremamente pesado e resistente, normalmente usado em blindagem de tanques de guerra. Ocorre que, na natureza, há um pequeno percentual deste urânio que possui um núcleo mais leve e instável, o urânio 235. Da forma como ele aparece na natureza, não temos como ter uma reação em cadeia com risco de vazamento nuclear. Porém, nós nos interessamos pelo fato de que esta instabilidade do urânio 235 gera calor, e lá no passado, alguém pensou: Porque não usar esse calor para aquecer a água e gerar energia elétrica da mesma forma que fazemos com o carvão? Ou, em um termo que muitos de vocês já ouviram falar, energia termoelétrica.

    Pois bem, para que o calor da fissão espontânea do urânio 235 pudesse ser utilizado em usinas termoelétricas geradoras de energia, é preciso que ele seja separado do urânio 238, estável e pesado. O processo de aumentar o percentual de urânio 235 (ou U235, chamado físsil) no urânio encontrado na natureza chama-se enriquecimento do urânio. Esse processo não precisa separar o U235 totalmento do U238, na verdade, na natureza temos aproximadamente 0,7% de U235 no U238 (dependendo do lugar do planeta onde ele é encontrado) e o processo de enriquecimento precisa fazer com que este percentual aumente para apenas 2,5% para que o U235 já inicie uma reação nuclear em cadeia.

    Apenas para sanar as dúvidas que devem estar brotando em sua cabeça, uma bomba atômica deve ser formada por mais de 95% de U235, para que tenhamos aquela reação em cadeia monstruosa que forma o famoso “cogumelo” nuclear. No Brasil, nossa constituição nos proíbe de enriquecer o urânio em níveis superiores a 20%, o que torna o nosso uso da tecnologia nuclear exclusivamente para fins pacíficos, ou seja, geração de energia elétrica.

    Quando o U235 se divide espontaneamente em dois subprodutos, ele libera, além do calor desejado pelas usinas termonucleares, o equivalente a 2,5 nêutrons do seu núcleo. Apenas 1 nêutron voando por aí já é suficiente para colidir com outro átomo de U235 e gerar mais uma fissão, então 2,5 nêutrons geram, em tese, mais 2,5 fissões nucleares, que geram por sua vez mais nêutrons e mais calor. Isto é que é a reação em cadeia, fazendo algumas contas rápidas podemos perceber que isto pode facilmente fugir do controle, pois quanto mais átomos se dividem, mais nêutrons são espalhados e mais reações de fissão novas são criadas e maior o calor gerado, tudo isso em uma velocidade absurdamente alta.

    Para impedir que esta reação saia do controle, e mantê-la sob supervisão constante, normalmente a reação nuclear ocorre dentro da água, pois a água diminui a velocidade dos nêutrons (o chamado meio “moderador” de nêutrons) e facilita a inserção de conjuntos “absorvedores de nêutros” (como barras de uma liga metálica de prata-índio-cádmio) no ambiente, que removem os nêutrons excedentes. Nêutrons estes que poderiam, em tese, fazer a reação sair do controle.

    Para que escrevi tudo isso? Para explicar que se por acaso a piscina onde o reator nuclear está imerso secar, os conjuntos “absorvedores de nêutros” não darão conta do recado e a reação pode sair do controle consumindo todo o combustível nuclear (ou seja, o U235) de forma muito rápida. Isso significa uma reação tão violenta, que o calor gerado cada vez mais alto derrete o reator e expõe os subprodutos radioativos na atmosfera, entre estes elementos está o césio 137, conhecido aqui no Brasil por causa do acidente em Goiânia em 1987.

    E porque isso é perigoso? Os diversos tipos de radiação que toda esta sujeira da decomposição nuclear gera são extremamente nocivos aos tecidos vivos, causando morte, mutação e disfunção das células. Em outras palavras, isso pode matar as pessoas, vai aumentar a incidência de câncer na região, assim como vai contaminar com radiação os alimentos e objetos ali produzidos, mercadorias estas que são exportadas para outros países ou consumidas pela população local.

    Na usina de Fukushima Daiichi no Japão, danificada pelo terremoto seguido de tsunami da última sexta-feira, 11/Março, pode-se ver muita fumaça em um dos reatores, isto pode ser a água da piscina ou do sistema de refrigeração do reator evaporando por causa da reação nuclear fora do controle, pode ser o produto de reações químicas ou pode estar relacionada com sistemas de segurança do reator que foram danificados. De qualquer forma, é uma situação fora do controle onde pouco se pode fazer. Apenas para efeito de comparação, a usina de Chernobyl, no norte da Ucrânia (palco do maior acidente em usina termonuclear já registrado, em 1986) foi lacrada com concreto mesmo cheia de radiação, e uma área de 30 Km ao redor dela continua selada e inabitada até hoje, pois não há como fazer a sua descontaminação. Além disso, os produtos produzidos em regiões próximas que eram exportados para o mundo foram afetados com radiação e até o Brasil chegou a importar alimentos com traços de contaminação desta região.

    Desta forma, o Japão está correndo sério risco de ter o seu comércio internacional afetado por este acidente, principalmente depois que o chefe da Agência de Regulação Nuclear dos Estados Unidos, Gregory Jaczko, disse que o acidente deve ser mais sério do que o divulgado pelo governo japonês. E o pior, além de parar de exportar, ele vai começar a importar produtos, pois a venda de produtos contaminados com radiação não será aceita por estrangeiros e nem por japoneses, que não poderão consumir seus próprios produtos vindos da região afetada.

    Isto redefine prioridades, estratégias e acordos internacionais. Lembrai-vos que o Japão é a terceira maior economia do mundo, e que um problema desta gravidade lá pode afetar os mercados internacionais.

    E quais as implicações disto nas bolsas? Em primeiro lugar, as bolsas trabalham com a expectativa do que vai acontecer no futuro. Resultados passados de lucro ou prejuízo não norteiam as principais variáveis na tomada de decisão dos investidores. E investidores querem ganhar dinheiro, quando eles têm informações que consideram “confiáveis” compram ou vendem suas posições. Quando os investidores percebem que as informações são contraditórias ficam arredios e encerram suas posições, migrando seu dinheiro para mercados mais seguros, ou seja, fora das bolsas (como, por exemplo, títulos do governo americano). E o que está acontecendo no Japão é que o próprio governo está tentando eufemizar a situação, como se este acidente nuclear fosse algo “contornável”, enquanto EUA e Europa já declararam publicamente que o acidente é muito grave e que a importação de produtos japoneses deve passar por auferições de radiação. Ou seja, estamos com informações contraditórias, que na visão dos investidores, não permitem a tomada de decisão. Neste cenário as bolsas caem, pois o dinheiro migra para outras aplicações mais seguras. Quando a situação se definir de forma verdadeira, grande parte deste dinheiro volta a ser alocado, embora longe das empresas que foram afetadas por este evento, mas que fará com que os índices voltem a subir.

    O tempo que esta “dança” dos investimentos pode levar para terminar está diretamente relacionado com o esclarecimento deste evento do acidente nuclear e também com suas possíveis implicações em outros mercados. Atualmente, com a informação correndo o mundo na velocidade da internet, é possível que tenhamos uma definição para este episódio mais rápida, porém não tem como projetar se esta definição será positiva ou negativa.



    Carlos Martins é autor do livro “Os Supersinais da Análise Técnica”, Ed.Campus-Elsevier, 2010, Coleção Expo Money, disponível para venda nas melhores livrarias ou pelo link abaixo:

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    Carlos Martins: Profissional de Investimento Certificado APIMEC - CNPI, autor do livro "Os Supersinais da Análise Técnica" (Ed. Campus-Elsevier, 2010) e sócio-fundador do Trader Gráfico.

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